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quarta-feira, 3 de julho de 2013

Aquecimento global terá maior impacto na agricultura do Nordeste

Estudo sugere manejo sustentável associado a novas tecnologias e políticas agrícolas menos predatórias
Numa escala de tempo ainda menor do que se poderia imaginar, o aquecimento global irá interferir diretamente na produção de alimentos. O estudo "Aquecimento Global e a Nova Geografia da Produção Agrícola no Brasil", realizado por Embrapa e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) é enfático: ou o Brasil muda a sua forma de produzir alimentos ou a agricultura entrará em colapso. O estudo prevê que a situação será mais dramática no Nordeste. E aponta uma solução: uso de novas tecnologias e manejo sustentável integrado.

Consumo de alimentos estará comprometido sem mudanças urgentes
FOTO: KID JÚNIOR
"Podemos adotar práticas de mitigação imediatamente, como fomentar o plantio direto, incentivar a integração entre pecuária e lavoura e os sistemas agrossilvopastoris, reduzir queimadas e o desmatamento, recuperar as pastagens. A maneira de fazer o pasto como importamos da Europa, dos Estados Unidos, no modelo arrasa-quarteirão, com nenhuma árvore no pasto, vai ter de mudar", explica o pesquisador da Embrapa Eduardo Delgado Assad, coautor do estudo.

O tempo urge porque, ainda que as mudanças para um maior aquecimento estejam previstas para 10, 20 anos, mas para se lançar uma variedade mais adaptada ao meio são necessários aproximadamente dez anos.

De acordo com o estudo, até mesmo o melhoramento genético seria uma alternativa de médio prazo, pois em um considerável aumento da temperatura (acima de 2ºC) traria problemas para fotossíntese. Para Assad, as tecnologias serão muito úteis, mas se integrada com políticas de mitigação da exploração dos recursos. Ele afirma que atualmente a agricultura é praticada de forma predatória e migratória das culturas. A pesquisa esclarece que quando se fala em aquecimento global não é só falta de água, na evidente situação de seca. Até mesmo a agricultura irrigada sofrerá, pois se trata do comportamento da produção agrícola diante do aumento da temperatura.

A Zona Norte do Ceará produz morango em áreas elevadas e com temperatura mais amena. De acordo com estudo da Embrapa e da Unicamp, as variedades adaptadas ao clima não seriam indicadas com o aquecimento global FOTO: WILSON GOMES
No caso do Nordeste, o estudo avalia que, tendo um impacto ainda maior, pensar na produção de variedades adaptadas à seca pode ser um erro. A sugestão é potencializar as plantas locais que já servem de alimentos. Tal medida pode ir de encontro às produções agrícolas exóticas com vistas à exportação, como é o caso do morango, no Ceará. O aquecimento só não traria uma péssima situação para a cana-de-açúcar, que teria menos áreas de riscos, favorecendo a produção de etanol. Tampouco isso quer dizer que o país encontre saída nessa monocultura, afinal estamos falando de alimentos.

Redução de carbono

Vale a pena esclarecer que o Brasil tem discutido a redução de emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE). Entre julho de 2012 e maio deste ano, os financiamentos pelo Programa Agricultura de Baixa Emissão de Carbono (ABC) alcançaram R$ 2,7 bilhões. O Plano ABC firmou contrato com 15 mil produtores rurais para adotarem novas tecnologias que reduzam os gases, como a recuperação de pastagens degradadas e o sistema de plantio direto. O objetivo é reduzir as emissões de GEE entre 36,1% e 38,9% até 2020.

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